quarta-feira, 22 de março de 2017

Tesla – Real to Reel (2007):



Por Davi Pascale

Há aproximadamente 10 anos, o Tesla soltou no mercado o primeiro volume de um projeto que intitularam de Real to Reel. Projeto que nada mais era do que reviver as musicas de alguns de seus principais ídolos. A ideia despretensiosa acabou rendendo um dos grandes momentos de sua discografia, graças à qualidade das interpretações. Por isso, resolvi escrever sobre ele hoje.

A banda é extremamente cultuada entre os amantes do hard rock, mas não é uma banda de hits. Ao menos, no Brasil. Embora tenham se destacado na década de 80, os rapazes nunca tiveram a mesma pegada comercial que outros grupos da época possuíam.  A influência de 60´s e, principalmente, 70´s sempre foi perceptível em seu som. E são essas as épocas celebradas aqui.

Entre os homenageados; estão artistas lendários como Beatles, Rolling Stones, Deep Purple, Led Zeppelin, Thin Lizzy, Robin Trower, entre tantos outros. Muito bacana que eles fugiram do território comum.  As músicas não foram descaracterizadas, mas eles não pegaram faixas manjadíssimas como “Smoke On The Water”, “Boys Are Back In Town” ou “Hey Jude”. Foram mais à fundo. O repertório é realmente muito bacana.

As guitarras de Frank Hannon e Dave Rude são o ponto alto do disco, assim como o belíssimo trabalho vocal de Jeff Keith. Mas não dá para deixar de citar o solo de bateria de Troy Lucketta em “Space Truckin´” (Deep Purple). Ficou destruidor.

Jeff arrebenta em “I´ve Got a Feeling” (Beatles). Certamente, uma das melhores faixas do disco. Os guitarristas se destacam em “Day Of The Eagle” (Robin Trower), esbanjando feeling, e, principalmente, em “Dear Mr. Fantasy” (Traffic). Os solos são de chorar de tão lindos.

Gravar Led Zeppelin é sempre uma tarefa ingrata, já que os 4 músicos originais eram fantásticos e seus fãs são tão doentes quanto os do Dream Theater. Conhecem cada nota, cada suspiro, acham um sacrilégio alguém alterar uma pequena virada que seja. Mesmo assim, os garotos se saíram incrivelmente bem na releitura de “Thank You”. O clássico dos Stones, “Honky Tonk Women”, também ficou bem representado.

“Rock Bottom”, classicão do UFO, e “Stealin´”, do Uriah Heep, também soam empolgantes. A única bola fora foi mesmo “Bad Reputation” do Thin Lizzy. Sim, é um puta som. E como já disse, os caras do Tesla são ótimos músicos. Definitivamente, sabem o que estão fazendo. O problema desse som é o vocal. A voz de Phil Lynott era bem característica e achei que soou estranha na voz do Jeff.

Em Real to Reel, os garotos do Tesla dão uma verdadeira aula de rock n roll. Fazem aquele rock n roll sem frescura, sem trocentos efeitos, com músicos tocando com alma e repertório avassalador. Para quem curte rock n roll, na essência da palavra, o disco é indispensável. Escutem!

Nota: 9,0 / 10,0
Status: Espetacular

Faixas:
      01)   Space Truckin´
      02)   Walk Away
      03)   Hand Me Down World
      04)   Bad Reputation
      05)   Thank You
      06)   I´ve Got a Feeling
      07)   Day Of The Eagle
      08)   Ball Of Confusion
      09)   Rock Bottom
      10)   Stealin´
      11)   Bell Bottom Blues
      12)   Honky Tonk Women 
      13)   Dear Mr. Fantasy

segunda-feira, 20 de março de 2017

Nenhum de Nós – A Obra Inteira de Uma Vida (2016):



Por Davi Pascale

Livro passa a limpo a trajetória de um dos nomes mais fortes da cena gaúcha. Escrito de maneira jornalística, publicação demonstra uma banda íntegra e bem administrada.

O auge comercial do rock n roll, no Brasil, foi a década de 80. Embora as cenas de São Paulo e do Rio de Janeiro tenham dominado as rádios, havia uma galera que conseguia furar a barreira. Surgiram grandes nomes de Brasília, da Bahia e também do Rio Grande do Sul. Um desses nomes foi o Nenhum de Nós.

Nos primeiros anos, dava a impressão de que ninguém derrubaria os caras. “Camila, Camila” e “Astronauta de Mármore” (versão em português de “Starman” do camaleão David Bowie) tocavam a exaustão nas rádios. Com o tempo, a mídia foi se afastando dos caras. Existem casos que são compreensíveis, como quando o líder da banda pula fora do barco ou quando insistem em se desligar do som e da imagem que os consagrou. Só que isso nunca aconteceu no universo do Nenhum de Nós e os rapazes conseguiram manter a qualidade dos seus álbuns com o passar dos anos. Dessa galera que faz um som mais comercial, é uma das bandas mais interessantes que temos. Realmente, uma pena...

Marcelo Ferla escreve toda a trajetória dos garotos de Porto Alegre. Contando com uma linguagem simples e diversas ilustrações, a leitura corre fácil. Tendo contado com o apoio dos próprios músicos, o livro traz vários depoimentos interessantes. Desde as gravações dos discos até curiosidades da estrada.

Explicam o porquê de muitos torcerem o nariz para os garotos e os acusarem de ser uma armação de estúdio (o que, de fato, nunca foram).  Comentam a chegada ao mercado independente, explicam as letras de “Camila, Camila” e “O Astronauta de Mármore”, seus maiores sucessos. Enfim, material bem bacana...

Durante a leitura fica claro que as gravadoras não tinham a menor preocupação artística com seus contratados, somente com as vendas. Algo que diversos artistas declararam ao longo dos anos e que os executivos sempre negavam. Por mais de uma vez, declaram que mostravam o disco empolgados para a gravadora e viam os responsáveis desprezando o material alegando que não tinha uma nova “Camila, Camila”.

Mesmo longe dos holofotes da grande mídia, os músicos conseguiram criar uma boa leva de seguidores e criaram uma carreira íntegra. Até hoje, se mantêm soltando álbuns e fazendo shows. Souberam se reinventar também na questão de estrutura. E isso torna a história ainda mais intrigante.

Os músicos se demonstram bem pé no chão, mostram que nada foi por acaso. Em cada disco, sabiam exatamente o que queriam passar e mantinham seus ideais, mesmo quando o produtor torcia o nariz. Livro altamente recomendado para aqueles que querem conhecer um pouco mais da historia do grupo de Thedy Corrêa e também para aqueles que querem ter uma noção de como funciona os bastidores da indústria musical (a historia da pisada de bola do músico Seu Jorge é realmente lamentável). Recomendadíssimo!

sexta-feira, 17 de março de 2017

Primal Scream – Screamadelica Live DVD (2011):



Por Davi Pascale

DVD ao vivo traz grupo apresentado seu mais endeusado álbum em performance hiper profissional. Para quem curte o disco, um prato cheio.

Tive meu primeiro contato com o som do Primal Scream pelo clipe de “Rocks” que assisti na MTV. Na época, a música era um lançamento. Comprei o tal novo disco – Give Out, But Don´t Give Up – e gostei muito do álbum. Aquela sonoridade rollingstonewannabe sempre me agradou. Talvez, por isso, nunca tenha me encantado tanto com o cultuado Screamadelica. Explico...

Quando fizeram esse álbum, os músicos quiseram sair do território comum (palminhas para eles), mas acabaram indo para um som que nunca foi muito minha praia. Se afundaram naquela sonoridade house music, aquela sonoridade bem discoteca. O lado psicodélico e roqueiro apareciam bem de leve, para minha tristeza. Exceto em poucas faixas, como a espetacular “Movin´ On Up”.

É exatamente esse som que abre o show. Em 26 de Novembro de 2010, os músicos tocaram o disco na íntegra, pela primeira vez, embora não tenham seguido à risca a ordem do álbum. É o show que temos aqui. A pegada eletrônica foi mantida, mas as guitarras deram uma crescida em algumas músicas, como na (boa) “Slip Inside This House”. A primeira metade é a parte que me agrada mais com a presença da (ótima) “Damaged” e das psicodélicas “I´m Coming Down” e “Shine Like Stars”, que ficaram interessantes ao vivo. Canções como “Loaded” e “Come Together” (não, não é a dos Beatles), contudo, continuam me cansando.

Os músicos optaram por acrescentar um segundo set para fechar 2 horas de apresentação. Justo! Esse segundo set, que dura aproximadamente 40 minutos, recebeu o nome de rock n roll set e focou nos discos lançados após esse trabalho, principalmente o XTRMNTR e o já citado Give Ou´t But Don´t Give Up. “Country Girl” e “Suicide Bomb” soam empolgantes. Sensacional ouvir “Jailbird” e “Rocks”, embora a voz de Bobby Gillespie já estivesse um pouco cansada nesta última.

O show está muito bem produzido. Iluminação caprichada, a banda está afiadíssima. Gillespie ainda mantém o mesmo pique que tinha nos anos 90, sua presença de palco ainda é a mesma. Os músicos são excelentes. A apresentação é bem profissional. Se você tem esse álbum como um dos preferidos do grupo, irá adorar o DVD.

A qualidade de gravação também está absurda. Qualidade de imagem absurda, qualidade de áudio absurda. Mesmo não contendo extra, não tem como negar que se trata de um belíssimo vídeo. Embora eu não tenha o Screamadelica como um ponto de destaque na carreira do grupo, gostei muito do show. Vale uma arriscada...

Nota: 8,0 / 10,0
Status: Profissional

Faixas:
      01)   Movin´ On Up
      02)   Slip Inside This House
      03)   Don´t Fight It, Feel It
      04)   Damaged
      05)   I´m Coming Down
      06)   Shine Like Stars
      07)   Inner Flight
      08)   Higher Than The Sun
      09)   Loaded
      10)   Come Together
      11)   Accelerator
      12)   Country Girl
      13)   Jailbird
      14)   Burning Wheel
      15)   Suicide Bomb
      16)   Shoot Speed / Kill Light
      17)   Swastika Wheels 
      18)   Rocks

quarta-feira, 15 de março de 2017

Esteban – Tupinikim Pizzabar (Santo André – 11/03/2017):



Por Davi Pascale
Fotos: Davi Pascale

E lá fui eu para mais um showzinho. Dessa vez, para prestigiar o projeto solo do músico Rodrigo Tavares e para conhecer o Tupinikim. Ano passado ia lá conferir o Far From Alaska, mas o show acabou sendo cancelado e acabei não conhecendo a casa. Pois bem... Vamos lá.

Moro em Santo Andre. A casa de shows é bem próxima da minha rua, mesmo assim, nunca havia reparado nela. Quando fui andar na rua para tentar achar o local, finalmente descobri por que. A fachada por fora é bem pequena, é fácil passar batido. Quem vê de longe, acredita tratar-se de um local minúsculo, onde o povo fica tudo espremido. Graças à Deus, não trata-se da realidade.

O espaço é bom, a equipe da casa é bem educada. O único senão é que o palco é bem pequeno e a ventilação da casa ocorre por ventiladores e não por ar-condicionado (muito provavelmente, pelo custo). Em shows lotados, deve ficar abafado. Como sou macaco velho, me posicionei em um local que ficava próximo ao palco e na direção de um dos ventiladores. Sendo assim, sempre vinha um vento na minha cara.

O evento começou cedo, perto das 17h, e antes da apresentação principal tiveram outros 3 artistas. Decidi chegar cedo e conhecer um pouco mais da cena underground. Descobrir o que anda rolando por aí. A primeira banda a subir ao palco fui um conjunto de São Paulo que atende pelo nome de banda Outono. Os músicos são esforçados, mas falta tarimba. A sonoridade deles é meio que um clone da Fresno, só que os músicos não têm a mesma qualidade. Baixista e guitarrista bem fraquinhos. O cantor é o melhor da banda.

Loris 19 veio na sequencia. Um duo vindo de Marilia que acaba de lançar um EP produzido justamente pelo Rodrigo Tavares. Pop/rock. Fizeram uma apresentação voz/violão, onde o destaque é, sem duvidas, a cantora Carolina Lana. A garota é bem afinada e tem um bom alcance. Misturaram canções de seu EP Sonho com covers de artistas como Cássia Eller e Legião Urbana. Saíram aplaudidos.

A terceira atração foi uma banda do Rio de Janeiro que atende pelo nome de Divisa. Show redondinho. Banda redonda com boa interação com o público. Tudo no lugar certo. Mais uma vez, misturaram canções autorais com covers. Entre os homenageados estavam The Killers e Fresno. Uma apresentação bacana de assistir. Dentre os números de abertura, foram os que se saíram melhor.

Para fechar a noite veio o Esteban. Pela casa não ser enooorme (bom espaço para um bar de rock n roll, mas não dá para comparar com uma casa de espetáculos propriamente dita) e pelo rapaz já ter tocado com nomes conhecidos (além de ter tocado na Fresno, ele acompanha Humberto Gessinger em sua banda solo), esperava um publico maior.

Tavares subiu ao palco perto das 20:20h apenas acompanhado de seu violão. Fez um show bem intimista. Conversou com a plateia entre as músicas, com comentários nonsense (a parte de estar tomando Coca-Cola por ter vindo de São Jose vomitando era dispensável) e explicando um pouco sobre as musicas que estava apresentando (isso é realmente muito bacana).

Nas apresentações solo, poderia trazer a tira colo um teclado. O instrumento é bem presente nas musicas de seus discos. E teclado/voz também funciona bem ao vivo. Tocou o violão com o segurança, cometendo poucas gafes e se demonstrou um cantor bem afinado. O público realmente idolatra o rapaz. As garotas gritavam para ele entre as musicas e a moçada sabia todas as letras de cor e salteado.

No repertório, misturou canções de Adiós Esteban, Saca La Muerte de Tu Vida e da época do Fresno. O setlist foi bem escolhido e trouxe algumas das favoritas dos fãs como “Pianinho”, “Carta Aos Desinteressados”, “Sinto Muito, Blues”, “Porto Alegre” e “Sophia”. Só lamentei o fato de ter sido muito curto. Em torno de 50 minutos de show e sem direito a bis.

Antes de ir embora, troquei algumas palavras com ele, assinei meus discos. A experiência foi bacana. O rapaz é realmente muito educado. Espero que retorne para o ABC com sua banda completa para que possa sacar como é seu show de fato. A experiência do fim-de-semana valeu como um saboroso aperitivo...

segunda-feira, 13 de março de 2017

Ace Frehley – Tom Brasil (05/03/2017):

Por Davi Pascale
Fotos: Davi Pascale / Foto minha com o Ace: produção do Ace
Publicado originalmente no site Consultoria do Rock
Semana passada, tivemos a oportunidade de presenciar uma super apresentação do lendário Ace Frehley. Pela primeira vez, o guitarrista que fez história no Kiss, pisa em território brasileiro para se apresentar enquanto artista solo. Uma espera de décadas para os rock soldiers que foi mais do que recompensada.
A noite não era das melhores. Festa de Carnaval na Paulista (não estou brincando), chuva despencando em São Paulo e na região do ABC. E isso refletiu um pouco na quantidade do público que compareceu ao local. Por toda a reverência que existe em torno do musico, e por ser a primeira vez que se apresenta com a sua banda por aqui, esperava um púbico maior. Entretanto, aqueles que compareceram, fizeram bonito e agitaram do início ao fim.
Quando Ace entrou no palco, já sabia que estava com jogo ganho. Logo que começaram a sair dos falantes os acordes de “Fractured Mirror”, numero instrumental de seu álbum solo de 1978, a plateia já foi à loucura. Os músicos foram entrando no palco, sem nenhum tipo de produção. Entraram, pegaram seus instrumentos e mandaram logo de cara o clássico “Rip It Out”. Para aqueles que acompanharam sua carreira longe do Kiss, durante esses anos todos, o início não poderia ter sido melhor. Era exatamente assim que ele iniciava os shows de sua Frehley´s Comet, no longínquo ano de 1987.
De diferente, apenas o andamento da canção. Igualmente pesada, mas menos veloz. Com som no talo, Richie Scarlet correndo de um lado para o outro e fazendo todas suas caras e bocas, os músicos mostravam que não estavam para brincadeira. Ace, que tinha estado apenas uma vez no Brasil, quando esteve na companhia dos mascarados na turnê do polêmico Psycho Circus (1998), demonstrou que a loucura do passado ficou para trás. Se em 1999, o músico aparentava estar fora de si, dessa vez, a realidade era outra. Totalmente compenetrado, reproduzia seus famosos solos com uma elegância fora do comum.
A segunda música do show foi extraída de seu último álbum de inéditas, Space Invader (2014), a ótima “Toys”, mas a casa só voltou a pegar fogo quando emendaram “Parasite”. Clássico dos tempos do Kiss que foi regravada em seu novo álbum. A versão do show é em cima da versão de seu novo trabalho, mais uma vez, mais cadenciada. Esse é um marco da nova fase do músico que já tem alguns anos, ele tem diminuído um pouco o andamento das canções, mas nada a ponto de descaracterizar ou a ponto de diminuir o impacto nas apresentações.
“Snowblind” veio à tona trazendo a grande polêmica da noite. Os músicos optaram por fazer um arranjo diferenciado reduzindo a velocidade no refrão, e não apenas no final, como acontecia na gravação original. Fato que nem todos os presentes entenderam. Fiquei bem feliz de poder ouvir isso ao vivo e gostei da versão. Na sequencia, o competente Scott Coogan assumiu os microfones para interpretar “Love Gun”. Bacana a ideia de deixar seus músicos cantarem nos shows, até porque todos eles têm uma boa voz, mas acho que a faixa escolhida, embora traga um de seus solos clássicos, tem mais a cara do Paul do que do Ace. Teria optado por outra canção. De todo modo, estava bem executada e foi muito bem recebida pelos presentes. O show do Ace é bem diferente ao show do Kiss. A produção de palco é super simples, não há efeitos especiais, nem nada do tipo. Apenas os músicos mandando som atrás de som.
“Rocket Ride” manteve a empolgação de seus admiradores que se emocionavam ao ver o músico reproduzindo seus famosos movimentos. Ace interpretava seu movimento clássico onde dava soquinhos com sua mão direita no corpo debaixo da guitarra, enquanto movia as posições no braço esquerdo, exatamente como aparece em seu VHS Live + 4. “Rock Soldiers” veio na sequencia, relembrando seus tempos de Frehley´s Comet e, mais uma vez, manteve a chama do espetáculo acesa. O musico não ficou falando muito no microfone. Falou o essencial e deixou sua guitarra falar mais alto. Longe do álcool e das drogas, demonstrava um feeling fora do comum.
Era a hora de Ace dar uma descansada. Chris Wise, baixista da banda, realizou um esforçado numero solo, antes de assumir os vocais de “Strange Ways”. Um dos clássicos esquecidos do set list do quarteto americano. Seus fãs estavam em êxtase com o repertório escolhido à dedo. “New York Groove” apareceu devolvendo o microfone ao dono da noite e estampando um sorriso na cara dos fãs. Ace Frehley não fica bancando a estrela do rock. Toca quase como se estivesse em um ensaio. Por vezes, até afastando sua boca demais do microfone. Não que ele estivesse desrespeitando a plateia. Estava apenas sendo ele mesmo. E é exatamente isso que seu publico espera dele.
E eis que chega a hora de seu fiel parceiro Richie Scarlet assumir os vocais. A escolhida foi “2 Young 2 Die”, do excelente álbum Trouble Walkin´ (1989), dedicada em homenagem ao falecido Eric Carr. Richie trabalha com o spaceman desde os anos 80. É incrível a animação desse cara nos palcos. Tem momentos que você jura que ele está tendo um ataque epilético. E o que poderia ser mais divertido do que ver os 2 guitarristas duelando no final da canção? E assim foi em um rápido numero onde intercalavam solos velozes e riffs de clássicos do rock. Espetacular ver Ace Frehley puxando o riff de “Day Tripper” (Beatles). Divertido!
O clássico “Shock Me” veio na sequencia com a plateia quase salivando de tanta animação. Certamente, uma das músicas mais esperadas da noite. Ao final da canção, Frehley emendou em seu numero solo, onde faz o captador soltar fumaça. Não reproduziu nota por nota seu antológico solo registrado em Kiss Alive! (1975) – época em que fazia esse número. Manteve apenas a movimentação. Emocionante ver isso cara-a-cara.
Para fechar a noite nada melhor do que o clássico “Cold Gin”. Ace precisou cantar apenas o refrão. A casa ficou responsável por cantar todos os versos com os pulmões cheios, quase como uma torcida organizada. Depois de um rápido intervalo, os músicos retornam ao palco com os fãs indo ao delírio e músico avisa. “Temos tempo para mais 1 ou 2 músicas”. E assim, foi. Mais dois sons para fechar a noite com chave de ouro.
As escolhidas? “Detroit Rock City” (mesmo ‘problema’ de “Love Gun”, bem interpretada, bem cantada – mais uma vez por Scott Coogan – mas não acho que traga a assinatura do Ace, a não ser no solo, é claro) e “Deuce”. A casa veio abaixo!
Depois de 95 minutos de show, os músicos deixaram o palco tendo entregado um show competente, empolgante, divertido, e, acima de tudo, honesto. Teve algumas gafes? Teve um ou outro errinho, mas nada que diminuísse o espetáculo ou tirasse o brilho. Aliás, isso é absolutamente normal quando estamos diante de um show 100% ao vivo, como os rapazes fizeram. Sem músico escondido atrás do palco, sem playback, sem samplers, sem base pré-gravada, sem músico de apoio. Apenas guitarra, baixo, voz, bateria, som dos falantes e nada mais. Esse é um show raiz, não nutella. Faltaram algumas músicas? Óbvio, mas isso já era esperado. Estamos diante de um cara que tem mais de 40 anos de estrada, mais de 20 álbuns gravados e apenas 90 minutos de show. Ao menos que ele brincasse de Jorge Benjor e ficasse fazendo vários medleys intermináveis não tinha como tocar tudo mesmo.
Antes da histórica apresentação de Ace Frehley, tivemos uma apresentação muito bacana de uma banda brasileira chamada Mahabanda. Infelizmente, muita gente não sabia que teria numero de abertura e eles acabaram tocando para um numero muito reduzido de pessoas. O que é realmente uma pena. A banda estava muito bem ensaiada, os músicos mandam bem. Infelizmente não conheço sua discografia para comentar escolha de repertório, mas quem assistiu, gostou.
E alguns felizardos, como eu, tiveram a oportunidade de tirar um retrato e assinar alguns itens com o lendário guitarrista do Kiss, após a apresentação. Jogo rápido. Entra, tira a foto, pega a assinatura, os brindes e tchau, mas valeu. Não é todo dia que temos a oportunidade de ficarmos cara a cara com uma lenda viva do rock n roll. Emocionante ver o cara de pertinho. Valeu, Ace! Espero que essa não seja sua única passagem em nosso país. Já estamos aguardando ansiosamente seu retorno. It was hotter than hell!!!

sábado, 11 de março de 2017

Soundgarden – Badmotorfinger 25th Anniversary Edition (2016):



Por Davi Pascale

Clássico álbum da cena grunge é relançado repleto de bônus. Álbum vence a barreira do tempo e contempla Chris Cornell como a melhor voz da cena.

Quando se fala de grunge, não há nenhuma dúvida de que o Nirvana e seu cultuado Nevermind foram os responsáveis por levar o gênero ao estrelato, mudando a cara do rock n roll e abrindo porta para diversos artistas, mas quem deu o pontapé inicial nessa história foi a trupe de Chris Cornell. O primeiro artista da cena à assinar com uma multinacional. Badmotorfinger foi o álbum que fez a cabeça dos jovens. O clipe de “Outshined”, com Chris Cornell exibindo cabelos longos e um bigodinho àla Latino foi assistido à exaustão pela garotada da época.

O disco é realmente excelente. Pesado, com algumas passagens arrastadas, altamente influenciadas por Black Sabbath (“Room A ThouSand Years Wide” e “Slaves & Bulldozers” são alguns exemplos) e um Chris Cornell altamente endiabrado. O cara solta uns agudos nesse disco que é de cair de joelhos. Sério mesmo.

Assim como todos os discos comemorativos, o material chegou às lojas em diversos formatos. Acabei pegando o CD duplo. Cheguei a pegar o LP nas mãos e fiquei babando com a capa meio holográfica. Lindíssima, mas acabei não ficando com ele porque não trazia os bônus, somente as musicas da época. Como já tinha o CD original, que comprei na época do lançamento, queria mesmo alguma edição com as faixas adicionais.

Bom… O primeiro CD é justamente o álbum da época remasterizado. Várias faixas desse CD são consideradas clássicos da banda e do movimento por seus admiradores. Caso não só da já citada “Outshined”, mas também de “Jesus Christ Pose” (que na época, teve um clipe que causou uma puta polêmica e acabou sendo banido da MTV. A galera começou a acusar os músicos de serem anticristos e blá blá blá. Deve ter no youtube. Dá uma checada), “Rusty Cage”, “Seaching With My Good Eyes Closed”, “Room a Thousand Years Wide” e, ufa, “Slaves & Bulldozers”. Se você não tem nada do Soundgarden, esse é o trabalho certo para começar.

A cereja do bolo, contudo, é o segundo disco com as versões alternativas. As primeiras nove faixas são os outtakes, ou seja, as demos. De um modo geral, são bem próximas às versões finais, só que com uma sonoridade mais crua. Os andamentos, as linhas vocais, já estavam ali. Curioso notar que “Outshined” e “Rusty Cage” ainda não traziam aqueles agudos que tanto nos impressionaram na época. Contudo, já demonstravam o potencial do cantor. As músicas já eram altas pra cacete. O talentoso Eddie Vedder era, provavelmente, o mais carismático da leva grunge, mas em se tratando de trabalho vocal, era o Chris Cornell quem impressionava a moçada mesmo. Também foi demais relembrar a versão de “New Damage” com a participação especialíssima do lendário Brian May (Queen).

Para fechar o CD, 7 musicas da lendária apresentação no Paramount Theater. O show não está completo, mas as performances são bem enérgicas e trazem o vocalista em boa forma. Chris Cornell nos álbuns é mágico. Ao vivo, depende do show. Tem show que ele arregaça, tem show que fica a dever. Isso já era assim, na época. Dependia do quão louco o cara estava. Nesse show, seu trabalho vocal está excelente. As musicas escolhidas foram em cima do repertório do disco que eles estão celebrando. Ou seja, faixas como “Flower” e “Gun” ficaram de fora. Pena que não incluíram “Into The Void” (Black Sabbath). Tinha curiosidade de ouvir isso. A qualidade de som é muito boa para a época e os músicos deixaram o som da apresentação sem retoques, portanto, é possível pegar alguns pequenos deslizes. De todo modo, como disse, a performance é ótima. Enérgica, suja e inspirada.

Para quem viveu a cena, é simplesmente nostálgico. E o mais bacana de tudo é ver que o álbum sobreviveu à prova do tempo. 25 anos depois, o disco continua soando impactante, empolgante e mágico. Obrigatório!

Nota: 10,0 / 10,0
Status:  Obrigatório

Faixas:

CD 1:
      01)   Rusty Cage
      02)   Outshined
      03)   Slaves & Bulldozers
      04)   Jesus Christ Pose
      05)   Face Pollution
      06)   Somewhere
      07)   Searching With My Good Eyes Closed    
      08)   Room a Thousand Years Wide
      09)   Mind Riot
      10)   Drawing Flies
      11)   Holy Water
      12)   New Damage

CD 2:
      01)   Rusty Cage Studio Outtake
      02)   Outshined Studio Outtake
      03)   Slaves & Bulldozers Studio Outtake
      04)   Jesus Christ Pose Studio Outtake
      05)   Face Pollution Studio Outtake
      06)   Somewhere Studio Outtake
      07)   Room a Thousand Years Wide Studio Outtake
      08)   Holy Water Studio Outtake
      09)   New Damage (c/ Brian May) Studio Outtake
      10)   Searching With Good Eyes Closed Live At The Paramount
      11)   Drawing Flies Live At The Paramount
      12)   Face Pollution  Live At The Paramount
      13)   Rusty Cage Live At The Paramount
      14)   Outshined Live At The Paramount
      15)   Mind Riot Live At The Paramount 
      16)   Jesus Christ Pose Live At The Paramount

quinta-feira, 9 de março de 2017

ZZ Top – Live! Greatest Hits From Around The World (2016):



Por Davi Pascale

Trio texano lança álbum ao vivo compilando seus maiores sucessos. Para criação do material, músicos recorreram à diferentes performances e resgataram participação de cultuado guitarrista.

Por alguma razão, esse álbum está sendo divulgado como o primeiro disco ao vivo do trio formado por Billy Gibbons, Dusty Hill e Frank Beard. Juro que me  lembro de ter um trabalho ao vivo, duplo, que atende pelo nome de Live From Texas e que teve, inclusive, prensagem aqui no Brasil. Que doideira!

O disco é exatamente o que o título diz. Suas músicas mais conhecidas, registradas em diferentes cantos do mundo. O mais bacana de tudo, é reparar que os shows de São Paulo foram lembrados. E com uma musica que é clássico total, “Legs”. Demais!

A única coisa que me desanima um pouquinho é o fato de várias musicas estarem com fade-out e de grande parte dos diálogos terem sido limados, acho que acaba tirando um pouquinho o lado humano do show. Tem muita gente dizendo que esse disco não tem overdubs. Se isso for verdade, fico felicíssimo, mas suspeito que tenham realizado algumas correções na parte vocal. Está tudo muito certinho.

No início, estava meio desanimado. “Got Me Under Pressure”, responsável por abrir o CD, está com um mixagem meia pobre, guitarra sem muita evidência, mas, graças a Deus, isso não ocorre em todo o disco. Na segunda faixa, a empolgante “Beer Drinks & Hell Raisers”, o som já está mais do que acertado.

O grande destaque é, certamente, a performance de Billy Gibbons. O que esse cara toca de guitarra não é brincadeira. Na parte vocal, nunca foi de ficar fazendo malabarismos, mas tem um estilo próprio e gosto bastante de seu timbre. Forte, rasgado. Está igual aos álbuns de estúdio. Tão igual que, como disse lá em cima, suspeito de algumas correções.

Uma das grandes atrações do álbum é a participação especial do lendário Jeff Beck nas duas canções extraídas das apresentações de Londres: “Sixteen Toys” e “Rough Boy”. Essa última, uma bela balada da década de 80, do álbum Afterbunner, para ser mais preciso, ficou lindíssima na versão apresentada aqui.

Destacar uma única canção como o ponto alto é uma tarefa absolutamente ingrata. Recomendaria ouvir com atenção; “Beer Drinkers & Hell Raisers”, “Waitin´ For The Bus”, “Legs”, “Rough Boy”, “I´m Bad, I´m Nationwide”, além dos clássicos absolutos “Sharp Dressed Man”, “Gimme All Your Lovin´” e “Tush”. O trio entrega aquilo que esperamos deles. Blues-rock de primeira com uma banda afiadíssima e solos belíssimos. Para quem não tem nada deles, funciona como uma bela porta de entrada.

Nota: 8,0 / 10,0
Status: Ótimo repertório

Faixas:
      01)   Got Me Under Pressure – New York City
      02)   Beer Drinkers & Hell Raisers – Las Vegas
      03)   Cheap Sunglasses – Paris
      04)   Waitin´ For The Bus – Nashville
      05)   Jesus Just Left For Chicago - Nashville
      06)   Legs – São Paulo
      07)   Sharp Dressed Man – Los Angeles
      08)   Rough Boy (c/ Jeff Beck) – London
      09)   Pincusshion – Berlin
      10)   La Grange – Dallas
      11)   I´m Bad, I´m Nationwide – Vancouver
      12)   Tube Snake Boogie – Rome
      13)   Gimme All Your Lovin´ - Houston    
      14)   Tush – Chicago 
      15)   Sixteen Toys (c/ Jeff Beck) – London